O camaronês Webó, ex-jogador e integrante da comissão técnica do time turco, foi alvo de comentários racistas por parte do quarto árbitro da partida, o romeno Sebastian Coltescu. Após o comentário e a revolta de Webó, os jogadores dos dois times se uniram e se recusaram a terminar a partida. Craques como Neymar e Mbappé foram alguns dos que tomaram a frente do protesto. O jogo só foi finalizado no dia seguinte. O resultado, uma goleada por 5 a 1 da equipe francesa, pouco importa perto do emblemático momento.
Esse acontecimento foi um divisor de águas no futebol mundial e, ao mesmo tempo, uma retomada do futebol como ferramenta política. Afinal, o futebol é e sempre foi uma das ferramentas possíveis para se discutir política com a grande massa. O clube está investindo na construção de um novo estádio, contratou uma grande estrela ou está endividado? Política econômica. Ofensas racistas ou homofóbicas? Políticas de minorias. Escolinhas de futebol nas periferias? Políticas de inclusão socioesportiva. Futebol feminino? Políticas de gênero. Isso só pra citar alguns exemplos.
Quem nunca ouviu falar da democracia corintiana liderada por Sócrates e Casagrande? Ou de quando, na década de 60, uma guerra civil na Nigéria foi suspensa momentaneamente para ver o Santos de Pelé jogar? Ou do jogo realizado no ano passado entre as duas Coreias - que, tecnicamente, ainda estão em guerra - pelas eliminatórias asiáticas? Há muitos exemplos de como o futebol pode ser ferramenta política no Brasil e no mundo.
Voltando a falar de racismo, há também muito ainda para ser melhorado no mundo. E isso não vale apenas para o futebol, mas para o esporte e a sociedade como um todo.
Entretanto, se, por um lado, é chocante percebermos que em pleno 2020 ainda precisamos combater o racismo, por outro, me sinto com a esperança renovada ao assistir a grandes levantes contra preconceitos como esse. Seja no futebol, com os tantos Webós que existem, seja na vida, com os muitos George Floyd e João Pedro mortos por ações truculentas, é importante que a gente não se esqueça dos que já sofreram e sofrem na pele os preconceitos.
É importante, sim, sabermos que na origem do futebol os negros eram proibidos de jogar. É importante, sim, que as crianças aprendam na escola o quanto milhões de negros escravizados sofreram aqui em nossas terras. É importante, acima de tudo, não nos esquecermos de nosso passado, para sabermos como chegamos até aqui e em quem queremos nos tornar. Porque, hoje em dia, não ser racista já não basta. Temos de ser antirracistas. O futebol e a sociedade devem dizer não a todo o topo de preconceito. O recado está dado: já não há mais espaço para o racismo dentro do campo. E que isso se reproduza cada vez mais no nosso cotidiano.
Por Taís Souza

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